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Usos e costumes, como é dito normalmente pelas pessoas, é a expressão popular que equivale à ideia de cultura da antropologia. Outra expressão igualmente utilizada é o modo ou estilo de vida. O estilo de vida, contudo, refere-se a um conjunto de normas importantes que ajudam a estabelecer os limites aceitáveis dos comportamentos. Esta noção inclui:

  • Aspectos teóricos da cultura:
    • visão do mundo;
    • valores morais (importância de determinadas virtudes)...
  • Aspectos práticos:
    • expressões de independência;
    • expressões de hospitalidade....

O estilo de vida, também chamado de estilo de cultura ou etnostilo, funciona como uma característica cultural distintiva de um período ou geração (ou gerações). Isto é, tendo por base uma cultura, apresenta uma visão e comportamento institucionalizado específicos que se vão renovando com o passar do tempo e das evoluções culturais.

E já agora, perguntam-me, o que é isto de comportamentos institucionalizados? Bom, primeiro vamos compreender um pouco os comportamentos. Os leitores podem revirar os olhos, mas, sim, isto é necessário! Existem três noções importantes a reter:

  • Comportamento Ideal: o comportamento que se tem quando sabemos que alguém nos está a observar - por exemplo, quando um grupo de crianças está a ser vigiado por um adulto para que se portem bem;
  • Comportamento Real: o comportamento que as pessoas efectivamente têm - por exemplo, quando o mesmo grupo de crianças é deixado à vontade num espaço sem vigilância;
  • Comportamento Reconhecido: o comportamento que as pessoas acreditam de facto ter, mesmo se tal não é o caso.

Estes são comportamentos que se encontram em qualquer pessoa de qualquer cultura, e não devem, portanto, ser descurados quando se quer conhecer (ou criar) a fundo uma cultura. Mas como sabemos que comportamentos específicos são estes? Porque existem normas culturais que obrigam cada membro da sociedade, e a própria sociedade, a comportarem-se de certa forma. As normas, ou seja, o que foi transmitido e estabelecido, limitam a liberdade de escolha levando o indivíduo a conformar-se (ou revoltar-se), mas não são ainda instituições. As instituições surgem quando uma norma fica estabilizada e constante, tornando-se um elemento determinante das relações sociais e uma componente do sistema social. Assim, um comportamento ideal deve estar em conformidade com as normas e com as instituições. Mas que instituições são essas?

São as instituições, com fundações numa cultura base, que formam o esqueleto da sociedade:

  • Instituição da Família
    • Namoro
    • Noivado
    • Matrimónio
  • Instituição da Iniciação Juvenil
  • Instituição da Organização Política

Aqui vemos três exemplos, um dos quais, a instituição da família, apresenta exemplos de outras instituições que, podendo ser analisadas separadamente, fazem parte de um género específico (ou categoria), o da Família. O conjunto coordenado de todas as instituições forma a organização social, ou seja, o modo como o sistema e os valores culturais das instituições se encontram unidos. Esta é a ordem social.

Com tantas normas e instituições a imporem modelos de comportamentos aceitáveis é preciso recordar que, e como já foi referido, uma pessoa não partilha ao mais pequeno pormenor a mesma cultura do vizinho. Isto deve-se ao facto, mas não só, de uma pessoa não conhecer bem a sua própria cultura. E porque é que não conhecemos toda a nossa cultura? A primeira razão é a de não nos apercebermos dela. Quando uma criança nasce, ela tem apenas necessidades e não sabe como, nem é capaz, de as satisfazer. Ou seja, nasce sem uma cultura. À medida que cresce, a criança encontra-se em contacto com aquela que será a sua cultura base - a dos pais e local onde vive. Será esta a cultura que a criança vai assimilar, sem ter consciência disso, e todos os hábitos ou padrões comportamentais que encontrar - numa base regular - irão formar a cultura dessa criança; formando ainda, em certos casos, subculturas.

Esperem, pede o leitor, subculturas? Exactamente. Além disso, a cultura assume-se de modo diferente no espaço e no tempo, e através da uniformidade e diversidade. Ou seja, se tivermos como cenário uma floresta onde vivem, separadamente, dois povos num dado período de tempo comum, podem desenvolver-se dois modos de vida diferentes: de caça-recolecção, versus a abertura de clareiras para cultivo do terreno. Sintetizando tudo isto, podemos então entender a cultura através de três perspectivas:

  • Existem grupos culturais "pré-definidos" (ou seja, áreas culturais) que dizem respeito a uma identidade - por exemplo, a cultura japonesa, portuguesa ou alemã.

  • Uma pessoa pode ter uma cultura principal, que caracteriza o seu modo de estar e agir, e ter ao mesmo tempo uma ou mais subculturas - como um emigrante, por exemplo, que mantém a sua cultura original apesar de agir de acordo com a cultura do país onde trabalha e vive.

  • Todas as culturas partilham um certo número de elementos culturais universais, mesmo que reajam de modos diferentes a esses elementos:

    • comunicação através de uma língua;
    • categorização das pessoas de acordo com a idade e sexo;
    • categorização das pessoas de acordo com o casamento, ascendência e parentesco;
    • educação das crianças nalgum tipo de convivência familiar;
    • divisão do trabalho de acordo com o sexo das pessoas;
    • conceito de privacidade;
    • regras para o comportamento sexual;
    • distinção de bons e maus comportamentos;
    • ornamentação do corpo - seja por que meios for;
    • produção de situações cómicas e de jogos;
    • produção de arte - seja de que tipo for;
    • cargos de liderança para a implementação das decisões feitas pela comunidade.

Estes são apenas alguns elementos culturais universais mais facilmente reconhecíveis, mas muitos mais existem. É o modo como as pessoas actuam relativamente a estes elementos que distingue uma cultura da outra, aproximando-as ou distanciando-as. Mas concentremo-nos nas subculturas. Elas coexistem com a cultura dominante de um modo marginal mas autónomo, podendo ou não possuir uma estratificação social e política. Observemos o exemplo dos Estados Unidos da América: a cultura americana, dominante, coexiste com diversas subculturas numa relação vertical (italiana, portuguesa, irlandesa); mas coexiste com a cultura ameríndia nativa numa relação horizontal. Existem ainda grupos que se colocam totalmente à margem da sociedade, possuindo valores distintos que são colocados em contraste. Estas últimas são, muitas vezes, subculturas de contestação.

Contudo, dentro de uma cultura existe também uma diferenciação cultural relativamente aos papéis desempenhados por homens e mulheres, jovens e adultos. Esta diferenciação, especialmente no caso dos sexos, leva também a que existam conhecimentos culturalmente específicos das mulheres (roupa, por exemplo), e outros específicos dos homens. A famosa "guerra dos sexos" lida exactamente com estas diferenças comportamentais entre homens e mulheres!

Quando duas culturas se encontram, a reacção mais natural de ambas as partes é uma atitude de condescendência e até hostilidade para com a cultura estranha (lembremos de novo a "guerra dos sexos"). Esta atitude levou, infelizmente, a que muitas culturas e povos fossem discriminados como "primitivos", sendo forçados a abandonar as suas culturas para se tornarem mais "civilizados" - como aconteceu com tantas crianças aborígenes e ameríndias que foram retiradas aos pais e entregues a instituições para que as "educassem". Esta falta de compreensão por outras culturas também impede que se entenda o porquê de certas culturas. Por exemplo, em certas sociedades em que se pratica a poligamia, a mulher pode preferir partilhar o seu marido com outras mulheres de modo a ter o seu trabalho doméstico facilitado. Por vezes, certas reacções mais extremas podem também acontecer relativamente a subculturas por parte da cultura dominante e, até, por parte de outras subculturas.

Setembro de 2004




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