Home do Criar Mundos

Introdução

Criar Mundos

:: Antropologia

:: Ciências

:: História

:: Linguística

:: Literatura

:: Mitologia

Portugal

Referências

Capítulo Anterior
<<

A Cultura em 4 Frentes

Próximo Capítulo
>>


A actividade humana acontece face a tudo o que rodeia o Homem, ou seja, o Universo. Este confronto acontece em quatro frentes:

  1. Realidade Individual
  2. Comunidade
  3. Ambiente
  4. Tempo

As duas últimas frentes são condicionantes exteriores, mas, apesar de serem essenciais e determinantes, os pontos fulcrais da cultura advém das duas primeiras frentes - pois são elas que dizem respeito essencialmente ao Homem. São estas que vão definir os elementos de uma cultura: os antropemas e etnemas. E o que são estes "emas"? Bom, os antropemas, com origem no indivíduo, são as raízes da estrutura cultural e social. De modo simples, os antropemas são os elementos culturais em bruto, enquanto os etnemas são o conjunto normalizado e estável desses elementos culturais, ou seja, são o resultado dos antropemas. Por exemplo, pensemos nos três elementos seguintes (antropemas):

Pai - Mãe - Filho

Estes elementos resultam num grupo familiar nuclear (etnema):

Pai----Mãe
 \     /
  \   /
  Filho

No entanto, e apesar de esta ser uma informação útil ao criador-antropólogo que goste de manter o seu processo criacional bem estruturado, não voltaremos a fazer mais esta distinção (salvo quando necessário). A partir de agora, vamos voltar a falar apenas em elementos culturais, em vez dos ditos "emas".

Realidade Individual
O indivíduo é uma peça importante no fazer e ser da cultura, pois cada pessoa actua devido à influência da cultura (relação passiva) e contribui com os seus pensamentos e sentimentos individuais para esta (relação activa). Assim, temos cada indivíduo como portador e criador de cultura, embora, claro, nem todos contribuam de igual modo. O facto é que a sociedade vai além das pessoas, incluindo e normalizando as suas acções numa estrutura que sistematiza e ordena as relações entre os indivíduos. Do ponto de vista cultural, os génios inovadores tornam-se muitas vezes em heróis, confundindo-se com mitos. Pensemos numa análise cultural dos Doze Trabalhos de Hércules, várias das suas tarefas servem de simbolismo para a aquisição de novos estilos de vida: a agricultura pode ser vista na busca do jardim das Hespérides, onde Hércules obtém as maçãs de ouro, por exemplo.

Comunidade
A inovação individual perde-se, por vezes, face ao património cultural a um nível comunitário, pois a cultura é o resultado da coordenação dinâmica e sistemática de um todo. Assim, certas expressões como "sempre fizemos as coisas deste modo", "foi assim que aprendi a fazer as coisas" ou "já os nossos avós (pais) faziam assim", têm um peso normativo muito grande. No entanto, podemos distinguir entre dois tipos de comunidades: a communitas e a comunidade. Em ambos os casos se trata de um grupo de pessoas com um objectivo específico, mas uma communitas centra-se, regra geral, em torno de "uma pessoa" fulcral que, independentemente dos objectivos de cada indivíduo, une todas as pessoas do grupo. E a comunidade é um grupo coordenado e ordenado, com vários níveis de formação, hierarquia e diversas participações.

Tanto a communitas como a comunidade têm um papel fundamental, em termos de distinção: identificam um indivíduo com um grupo enquanto o distingue de todos os outros, mas sem isolar esse mesmo indivíduo, pois permite o seu relacionamento com outras culturas - um relacionamento baseado nos elementos que o identificam como parte de um grupo. No entanto, existem certos elementos com um valor superior a outro, ajudando a fundir diversas comunidades dentro de uma mesma cultura, como a língua e o território. Qual o português que, seja de que clube desportivo, profissão ou religião for, não aplaudirá uma selecção portuguesa num campeonato?

Por fim, em relação à comunidade, gostaria apenas de comparar algumas das principais tendências conservadoras e renovadoras da cultura:

Tendências Conservadoras Tendências Renovadoras
  • Instituições
  • Rigidez dos materiais disponíveis
  • Transmissão hereditária
  • Passagem de uma geração para outra
  • Novas exigências devido a circunstâncias espaço-temporais diferentes

Ambiente
Como já falamos de ambiente e Universos antes, vamos primeiro ver o que é que esta categoria "ambiente" inclui, ou seja:

  • toda a natureza externa (montanhas, planícies, rios, mares e todos e quaisquer acidentes geográficos)
  • clima
  • vegetação (seja espontânea ou cultivada)
  • vida animal
  • tecnologia (atenção que isto não implica um nível tecnológico elevado, podemos estar a falar de algo anterior à roda....)

O que é mais importante para ter em conta no modo como o ambiente influencia a cultura, é o factor condicionante da técnica: os utensílios, vestuário, habitação e armas serão feitos com base nos materiais disponíveis; a alimentação e o modo de a obter depende igualmente do local onde se vive; as raízes que moldam as concepções abstractas da cultura - o modo como se vê e entende o que nos rodeia - depende também do ambiente. Por outro lado, o Homem, através da técnica-tecnologia, manipula o ambiente, o que voltará a ter repercussões na técnica. Trata-se de uma espiral de influências, causa e consequência, que é necessário ter em consideração. Mas, e como já foi referido anteriormente, não podemos esquecer que o ambiente é uma condicionante e não uma ditadura. Para que se entenda melhor, vamos observar algumas realidades práticas:

Ambiente: neve

Raquetes para marcha na neve.

Raquetes para marcha na neve.

Casas de gelo (iglus)

Casas "normais" (telhado em bico)

Ambiente: floresta tropical

Caça e recolecção - Nomadismo.

Cultivo em parcelas de terreno - Sedentarismo.

Para complicar um pouco mais as coisas, em termos de conceitos abstractos (visões do mundo), não podemos considerar apenas o ambiente envolvente. A organização social é um factor fundamental, sendo que podemos distinguir, para já, dois tipos de organização: o nomadismo e o sedentarismo. Assim, tendo em conta a organização social, o Homem vê o que o rodeia de modos diferentes:

Nomadismo Sedentarismo

Caça-recolecção

Pastoreio

Agricultura

Teísmo Silvestre
A floresta é a fonte de todos os aspectos divinos e a inspiração para ritos sagrados.
Teísmo Pastoral
O céu e as forças cósmicas (a mudança das estações, por exemplo) que mais influenciam os rebanhos são os pontos principais a ter em conta.
Teísmo Agrário
Os conceitos de Terra e cultivo são a base de tudo, passando também pelas interpretações cosmológicas.

Tempo
Já foi dito por diversas vezes, ao falarmos de tempos, que algo acontece "num dado momento", significando que este "dado momento" identifica um período temporal específico numa cultura. No entanto, quando pensamos em "tempo", pensamos em termos de Passado, Presente e Futuro; não nos apercebendo que existem outros modos de "medir" o tempo. Assim, aqui vamos dar uma olhadela a dois outros modos de o encarar: o Micro e Macrotempo; e o Tempo Estrutural e Ecológico.

Microtempo - Período do Consciente Macrotempo - Período do Mito
Refere-se aos acontecimentos que são experienciados pelo indivíduo ou comunidade. Só após os acontecimentos terem sido experienciados, ou seja, englobados no microtempo, é que podem passar a ser macrotempo. Este período, do qual ninguém pode passar, engloba o microtempo como se este fosse um núcleo interno.


Estrutural Ecológico
Está relacionado com a distância física (quilómetros, montanhas, etc) entre grupos de pessoas e os eventos sociais associados a estas. Por exemplo: mercados, rituais religiosos. Está dependente dos acontecimentos cíclicos marcados pelas estações. Por exemplo: alturas de migração, cultivo, rituais religiosos.

Novembro de 2004




Capítulo Anterior
<<
  Próximo Capítulo
>>

Este site e todos os materiais nele presentes são propriedade das suas autoras, excepto quando se indique outros autores.