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A Dinâmica Cultural

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A cultura tem sofrido um crescimento ao longo dos tempos, desde os primeiros hominídeos - crescimento esse que proporcionou uma evolução cada vez mais rápida. Claro que toda a rapidez é relativa! Actualmente, a evolução cultural atinge um ritmo sem precedentes, algo que seria impensável sem a proximidade das populações e, por conseguinte, das suas culturas, pela tecnologia.

Uma vez que a cultura é algo que se aprende, a vida em comunidade permite uma exposição a um maior número de hábitos - pois a cultura é cumulativa - e, por conseguinte, a uma maior possibilidade de evolução. Diversas comunidades levam, por sua vez, a uma maior comunicação e trocas culturais. Certos hábitos podem ser esquecidos, sendo substituídos por outros pertencentes a outras culturas, ou então substituídos por simples evolução cultural. Deste modo, podemos dividir a dinâmica cultural em três factores - enculturação, aculturação e desculturação - que pertencem a um processo único e dinâmico que acontece contínuamente e ao mesmo tempo

Actualmente, a rápida troca de informações que permite o contacto de culturas diferentes leva a que todas elas sofram uma aculturação. Ao adquirirem novos hábitos culturais as culturas vão ficando mais enriquecidas, mas se perderem muitos traços culturais, estas culturas ficam em risco de desaparecerem. Infelizmente, este último caso é o mais comum com diversas culturas a sentirem uma aculturação excessiva por parte de culturas mais fortes, economicamente. No entanto, para além de uma tendência globalizante, actualmente também co-existe uma tendência tribalista - que procura reviver as diferenças culturais para que certos grupos não percam a sua identidade cultural.

Enculturação
Este é um processo educativo através do qual os indivíduos (regra geral pensamos nas crianças como o único alvo, mas este é um processo que acontece ao longo de toda uma vida) apreendem os elementos da sua cultura, quer informal, quer formalmente. Este processo acontece informalmente de um modo contínuo, seja consciente ou inconscientemente, pois processa-se essencialmente pela imitação e pelo envolvimento com grupos espontâneos, e não instituições sociais. A família e os amigos são um bom exemplo de grupos fundamentais à enculturação informal. Pelo contrário, a enculturação formal é pautada pelo aspecto normativo e obrigatório inspirado por instituições sociais, o que diminui a iniciativa espontânea (embora raramente a anule). A escola é, supostamente, uma das instituições principais da enculturação formal.

A enculturação implica ainda um outro factor: a iniciação. Quando se fala de iniciação, referimo-nos a todos e quaisquer tipos de rituais de iniciação:

  • de puberdade e tribais
  • religiosos e de outros mistérios
  • escolares e académicos
  • desportivos e militares
  • de outros grupos, associações, etc

No entanto, estamos habituados a pensar em iniciações como uma celebração ou situação / evento que marca um certo acontecimento, quando, na realidade, a iniciação não é um evento único, mas uma série de estádios. Em certos casos, uma iniciação implica toda a instrução que um indivíduo recebe. Assim, independentemente de ser uma iniciação que acompanha o desenvolvimento fisiológico (início da menstruação, por exemplo) ou a maturidade fisiológica (como o estádio da adolescência ou de adulto), existem três tipos de iniciação:

  • Instrutiva - onde cada indivíduo aprende as tradições e os comportamentos a ter através da instrução directa
  • Dramática - onde a acção cénica é o método preferencial de ensino
  • Visão - onde o indivíduo entra em contacto com o mundo dos espíritos através de isolamento, jejum ou drogas, interpretando as visões que daí advirem

Então, por exemplo, conclui o leitor, a praxe universitária é uma iniciação! Absolutamente correcto. O primeiro ano que um aluno passa como caloiro, digamos, numa faculdade corresponde ao período de iniciação - um período longo em que passa pelo menos por três estádios: o da chegada, o do período da praxe propriamente dita, e o um período de aprendizagem que termina com o final do primeiro ano. Infelizmente, e apesar do efeito estrutural da praxe acontecer de facto (ocorre uma mudança de status social), o efeito psicológico falha pois não consegue transmitir a dignidade da passagem de caloiro para um "estádio acima".

Para terminar, vamos apenas ver por que tipos de acontecimentos ocorre a mudança de status social:

  • Ritos de Separação em que o indivíduo é retirado do seu mundo anterior quase que por uma morte simbólica
  • Ritos Marginais ou de Liminalidade , o momento de passagem sagrada em que o idivíduo já tem ou ainda não tem uma nova qualificação (pertença ao novo status)
  • Ritos de Agregação que transformam o indivíduo num novo membro da sociedade, quase que por meio de uma ressurreição simbólica

Aculturação
O processo de aculturação acompanha e pode até sobrepôr-se à enculturação. São, assim, processos muito semelhantes, mas enquanto a enculturação é a aquisição de cultura por um membro dessa mesma cultura, a aculturação é a aquisição de elementos culturais de culturas externas. Claro que essa assimilação, integração e fusão de elementos, por muito que os agentes da aculturação sejam intencionais, não é um ponto assente na medida em que a cultura receptora é muitas vezes selectiva face aos elementos culturais estrangeiros. Por exemplo, os ameríndios, de um modo geral, assimilaram o cavalo no seu modo de vida; no entanto, os índios Soshone não os conseguem criar visto o seu território não proporcionar o pasto necessário. Por outro lado, se a força de aculturação se tornar opressiva contra a selectividade natural do povo "aculturado", podem gerar-se crises de mal-estar social que podem explodir e também originar movimentos religiosos ou crenças de salvação.

A aculturação é, basicamente, o resultado das relações culturais que podem ser de ordem diversa:

  • Simbiose Cultural
    • Ocorre quando há coexistência ou convivência entre duas ou mais culturas (sub culturas, por exemplo).
    • Esta coexistência ou convivência não pode ser ocasional ou temporária.

  • Osmose Cultural
    • Ocorre quando, por mais que as culturas sejam diferentes, alguns elementos culturais unificam-se devido a alianças matrimoniais, trocas comerciais, escaramuças e lutas ou guerras.
    • Esta é uma relação típica em zonas fronteiriças.

  • Fusão Cultural
    • Ocorre quando os elementos culturais de duas ou mais culturas se misturam de tal modo que dão origem a outra cultura como aconteceu, por exemplo, no México: a cultura azteca nativa fundiu-se com a cultura espanhola invasora dando origem à actual cultura mexicana.

  • Segregação ou Apartheid (racial e cultural)
    • Este é o nome que se dá à recusa política de aculturação, provocando uma cisão entre cultura nativa e invasora. Se esta cisão for de natureza comercial chama-se autarcia.
    • Qualquer um destes fenómenos são absolutamente negativos, tentando deter, em vão, a dinâmica social.

  • Sincretismo
    • Ocorre quando se fundem características de divindades e/ou outros elementos religiosos de sistemas religiosos absolutamente diferentes, dando origem a divindades ou elementos novos.

Estas relações incluem, regra geral, a existência de agentes de aculturação tais como:

  • Actividade Missionária
    Esta não se limita ao cristianismo, mas a todas as religiões estruturadas em igrejas, e que têm como objectivo mudar outras culturas nas suas vertentes religiosas, podendo incluir outros elementos culturais contrários aos seus princípios religiosos. Os missonários actuam directamente sobre as pessoas, a título individual, e indirectamente sobre as instituições.
  • Comércio
    Um dos veículos mais comuns e fomentador de trocas culturais é exactamente o comércio, sendo que a própria expansão territorial tem em vista alargar mercados comerciais, obter matérias-primas a baixo custo, etc.
  • Colonialismo
    Trata-se do domínio de um povo ou região por um grupo de colonos, imigrantes. Este é um princípio muito semelhante ao Imperialismo, que implica também um domínio cultural e político directamente imposto pelo país de origem dos colonos. Estes dois agentes de aculturação apoiam-se muitas vezes no extermínio e na assimilação (dos dominados pelos dominantes) para atingir um equilíbrio relativo.
    • O Colonialismo na forma de reservas é um modo das forças dominantes controlarem os nativos através de instituições político-administrativas impostas. São medidas polémicas pois, enquanto pretendem garantir território aos nativos e protegê-los, promovem o isolamento forçado, permitindo conter reacções de descontentamento à sua situação por parte dos nativos, e o extermínio incontrolado destes.

  • Neocolonialismo
    Trata-se do domínio ao nível económico, o que permite o domínio político devido à dependência económica. Funciona numa base de relações bipolares: ricos dão - pobres recebem.

Desculturação
Relativamente à desculturação não há muito mais a dizer: é o processo de perda ou destruição do património cultural, o que pode incluir apenas alguns elementos culturais ou toda uma cultura. Este processo pode acontecer de um modo impercetível, como acontece com a constante evolução e renovação da língua; ou pode acontecer de modo traumático, como em situações de extermínio e genocídio, que visam acabar com todo um povo e sua cultura, ou "moldá-los" para escravatura.

Dezembro de 2004




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