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Antes de se avançar para a criação de uma língua é necessário parar e pensar um pouco sobre o que é a "língua". E, já agora, o que é a "linguagem".

Ora, a linguagem é a faculdade de expressão e comunicação que faz uso de um sistema de signos convencionados. Confuso? Nem por isso: estamos a falar de linguagens não-verbais, como a gestual, visual, sonora e simbólica; verbais, que fazem uso do uerbo (palavra) e que incluem linguagens em código; e mistas, como a banda-desenhada que mistura uma linguagem não-verbal (o desenho), com uma verbal (a escrita).

Quanto à questão da língua, esta é uma forma particular de linguagem, um "sistema de signos vocais, que podem ser transcritos graficamente, comum a um povo, a uma nação, a uma cultura e que constitui o seu instrumento de comunicação", segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (A. A. V. V. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Academia das Ciências de Lisboa e Ed. Verbo, 2001). Bom, perguntam-me agora, e o que é um signo?

O signo está ligado ao referente, que é o objecto real (ou uma realidade abstracta) a que o signo se refere, e é o nome que se dá ao conjunto do significante, uma sequência de sons e forma gráfica, e do significado, uma ideia ou conceito. Complicado? Vamos ver um exemplo: o signo "árvore" é constituido pela palavra escrita "árvore" e pelo conceito de árvore (uma planta com um tronco e ramos grossos castanhos coberta por um número incontável de folhas verdes), sendo que qualquer pessoa poderá apontar uma árvore (objecto físico e real) como referente. Se conhecer o seu significado! Senão não terá qualquer significado e não representará nada. Será como ler "wgtafga"...

Mas, por outro lado, se o signo em questão for a palavra escrita "livre", um português compreenderá o seu significado como uma noção de liberdade, e um francês compreendê-lo-á como sendo referente a um livro. Como se sabe qual significado é o correcto? Sabe-se porque, regra geral, os signos estão inseridos num contexto. Continuando com "livre", digamos que o contexto é uma frase que indica se é uma palavra portuguesa ou francesa - o leitor poderá então identificar o significado adequado. Isto acontece (e não só entre palavras estrangeiras que se assemelham, pois também dentro de uma língua se encontram palavras que originam confusões destas) porque os signos são o resultado de uma convenção que é aprendida (e definida) de acordo com uma cultura, uma sociedade - não sendo, portanto, imutáveis, mas evoluindo ao longo dos tempos.

Pois isto é tudo muito bonito: mas uma língua é apenas um dicionário e uma gramática que esclarecem o modo como funcionam os "signos convencionados"? Claro que não! Uma língua é inseparável da cultura do local onde é falada, o que significa que é acompanhada de entoações, gestos, olhares e expressões faciais, entre outros tipos de linguagem. Por exemplo, podemos falar da linguagem gestual que é, em si, uma língua de facto, apesar de não possuir sons. Do mesmo modo, podemos referir os pidgin e crioulos: e quando é que falamos de um pidgin ou de um crioulo? O pidgin é uma linguagem simplificada que se desenvolve para que duas comunidades, que não partilham a mesma língua, possam comunicar (especialmente por motivos de comércio); e o crioulo é uma língua per se que evoluiu a partir de um pidgin, e que é muitas vezes vista como um dialecto. E lá voltamos à questão da distinção entre língua e linguagem.

Como acontece com tantas outras formas de categorização, esta distinção, apesar de indispensável, é muito artificial. Estes dois conceitos ajudam a entender a estrutura orgânica das línguas e da comunicação, e ajudam exactamente porque são interdependentes, facetas inseparáveis de um mesmo fenómeno extremamente complexo: se a língua é "criada" pela linguagem, é a própria língua que está nas fundações da linguagem.

Setembro de 2003




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